terça-feira, 30 de janeiro de 2018

ESCÓCIA - A iniciação: Eu, moradora de mim mesma e dona da minha história -Parte 1
"Quando em julho daquele ano recebi as informações de como chegar a Erraid, pequena ilha no alto da Escócia onde moram 10 pessoas, achei que tudo estava resolvido.
“Ok”, disse egoicamente para mim mesmo. “É simples. Basta seguir as informações.”
Mal sabia eu, naquela época, que simples não significa fácil. E que eu acabara de “iniciar minha Iniciação...”
Após momentos de muita turbulência, decisões, transformações e realinhamentos, eu havia decidido que chegaria a esta ilha no dia 31 de outubro, momento da Roda do Ano Celta em que os véus estão mais finos, propiciando um encontro com o “lado de lá” e com a força da origem, dos antepassados, seja eles da linhagem genética “herdada”, ou da linhagem espiritual “escolhida”.Seria minha “auto-iniciação”.
Cheguei em Glasgow na noite anterior a viagem para a Ilha, que segundo as informações que havia recebido, tomaria meu dia inteiro.
Ao acordar, na manhã de 31 de outubro, apesar das instruções indicarem claramente o horário do trem que deveria pegar, disse para mim mesma “Não preciso sair tão cedo. Há trens de hora em hora . Vou tomar meu café com calma e pegarei o próximo.”
E assim, não ouvindo as instruções e os sinais do caminho, ao invés do trem da 8h, peguei o das 9h.
Escócia acima, lá fui eu, passeando de trem por belas paisagens que se desenhavam à minha frente.
Florestas densas e antigas, pequenos regatos escorrendo das montanhas e o ar frio de Outubro davam sinais de para onde eu estava me dirigindo naquele dia em que mal sabia, seria parte de uma dos grandes ritos de passagem em minha vida.
4 horas depois, desci do trem, e conforme o mapa, me dirigi ao guichê de compra de passagens para o Ferry Boat, uma grande balsa que atravessaria para a primeira ilha.
Não havia viagem para as próximas 2 horas. “Ok” disse para mim mesma. “Vou apreciar a vista enquanto aguardo”
Na hora marcada, as portas do ferry se abriram e as pessoas foram entrando, e para minha imensa surpresa, em grandes estantes gradeadas, foram deixando suas malas, suas bolsas e...subindo para o deck para apreciarem a viagem!!!!!!!!
“Como assim”, perguntei para mim mesma “alguém é capaz de abandonar seus documentos, seus pertences e ir ver a paisagem?”
Não consegui fazer o mesmo. Deixei apenas a mala e subi com minha mochila.
Lá, na parte de cima da balsa, todos olhavam p mim como se eu fosse um caramujo que ao invés de aliviar-se da bagagem quando podia, escolhia caminhar com o peso nas costas. Mal sabiam eles que o MEDO me fazia carregar mais peso que o necessário...
Enfim, comi algo no pequeno restaurante e após uma bela travessia pelo mar aberto, cheguei ao porto, e ao descer da balsa, fui direto para a pequena “rodoviária” onde pegaria meu penúltimo transporte, um ônibus.
A esta hora do dia, característica de outono, o sol já descia no horizonte e dia começava a escurecer.
Algo e mim então acordou...Ouvi uma voz interna que dizia “você não chegará no local combinado na hora certa...nem antes de escurecer completamente...”
Novamente o MEDO, meu fiel companheiro de viagem, se manifestou.
Mas desta vez resolvi rebater a voz interna com outra que dizia “ok. Se não encontrar ninguém, acharei como me virar”
E segui em minha jornada por uma estradinha estreita, de um carro só. Fiquei pensando “como será que os carros transitam por este local, com apenas 1 única pista?”
Logo a frente, tive a resposta. Apesar da estrada ser para um veículo apenas, há pequenos acostamentos, como alças na estrada. E quando o motorista do ônibus avistava um carro vindo em nossa direção, ele apenas se colocava no acostamento e aguardava o carro passar. E continuávamos nosso caminho.
“O caminho é estreito. Mas isso não impede que eu caminhe para a direção que desejo, sendo capaz de flexibilizar e facilitar também o caminho de todos...”
Uma hora e meia depois, quando o ônibus parou, o motorista virou para traz e avisou “ponto final”, apenas me esperando descer, voltando imediatamente pelo caminho estreito em que viemos, desaparecendo na escuridão.
Um frio gelado subiu pela minha coluna. Fosse ele pelo vento do Outono vindo do mar à minha frente ou porque algo em mim então entendera quão prejudicial havia sido meu descuido inicial, o fato é que o ar gelado e a escuridão me traziam a consciência derradeira: eu deveria ter saído no primeiro trem pela manhã. Pois a esta hora, fim de tarde de Outono, o local estava deserto e não havia, como tinha sido combinado, uma pessoa da ilha me aguardando. Eu havia chegado atrasada!
O vento soprava cada vez mais forte e a escuridão descia como um “véu entre mundos...”
Afinal, não era isso que eu queria?
Não fora eu que havia escolhido estar ali, naquele dia e naquela hora? Respirei fundo e fiz força para que a culpa não embaralhasse ainda mais a minha visão.
Havia neste pequeno píer um deck onde as ondas do mar escocês batiam com força, e um pouco mais recuada, uma sala com algumas cadeiras que deveria ser o local onde se vendia passagem. Mas é claro, estava fechada.
A pessoa que me esperaria deve ter ficado lá e vendo que não cheguei, se foi.
E então, levantando o olhar, comecei a pensar se haveria alguma esperança.
Duas pequenas edificações há uns 100 metros dali, tremeluziam com luzes coloridas e mais a frente avistei algo que parecia ser a salvação: um velho telefone público.
Com o coração aliviado, caminhei em direção ao telefone, me achando esperta e imaginando que havia resolvido meu problema.
“Vou ligar e dizer que houve um imprevisto e que por isso me atrasei” disse para mim mesma buscando aliviar minha culpa.
Não tive a chance de contar minha estória... No telefone havia um aviso que me daria um recado duplo, tanto da sua condição quanto da minha mentira.
Grande, com letras garrafais e em vermelho via-se uma placa onde estava escrito “NÃO FUNCIONA”
E então me lembrei... Simples não é necessariamente fácil...
Ajeitando minha mochila nas costas e puxando minha mala, que agora já pesava 10 kilos a mais de que quando saí pela manhã, caminhei pela rua em direção ao primeiro conjunto de 3 casinhas.
Para minha surpresa na primeira delas, de onde vinha um som abafado de música moderna, havia uma placa de neon onde se lia PUB.
“Imagino que aqui consiga alguma informação sobre a ilha ou como me comunicar com eles, pensei” Afinal, esta hora já havia entendido que as instruções recebidas para uma Jornada devem ser lidas e seguidas propriamente pois são elas que guiarão você pelo caminho...
Com delicadeza, forcei a porta de entrada fazendo soar um pequeno sino. Não consegui abrir.
Forcei mais um pouco e me pareceu estar trancada.
Ouvi então passos que vinham em direção a mim.
E então a porta se abriu...
Por alguns segundos fiquei imersa em uma sensação indescritível...uma luta entre a razão e a magia se travou dentro de mim.. (como se fosse possível viver em apenas em um destes dos mundos...)
Aquilo que via ressoava em mim numa estranha sensação... Era como se o Universo houvesse realmente atendido ao meu pedido de ser iniciada em Samhain, vivenciando o tão evocado “véu entre mundos” tão venerado pela minha linhagem espiritual Celta...
No vão da porta, segurando a maçaneta com enormes unhas vermelhas , uma mulher de quase 2 metros de altura, chifres brilhantes e sorriso iluminado, disse por traz de seu encantador e demoníaco traje magenta: “Boa noite, querida! Seja bem vinda!”
Com passos confusos e inseguros, entrei no ambiente. E para completar meu assombro e minha mais completa e inusitada surpresa, através da meia luz do ambiente mágico, seres elementais olhavam para mim como se eu fosse um deles... Duendes de chapéu em forma de cone tomavam bebidas coloridas, fadas de asas transparentes caminhavam pelo recinto com bandejas brilhantes e no balcão o deus Pã me olhava por traz da caixa registradora.
Embora racionalmente eu soubesse que era dia 31 de outubro e pelo mundo inteiro festas a fantasia são comuns neste dia, demorei alguns segundos até conseguir chegar ao balcão , organizar os pensamentos e balbuciar algumas palavras."
(continua...)